8.1.12

Rotina

Todo dia ela faz tudo sempre igual. E, apesar da ordem das coisas não seguir um padrão, no fim do dia não há diferença. Senta estranho, fala pouco, pensa muito. Sente muito. Já viveu mais. Mais horas do dia, mais dias nas horas, mais dela no tempo. Me perguntou o que acho. Respondi que era reclusão. Como se tudo o que houvesse lá fora fosse tão dela que ela não merecia. Não sabia o que fazer. Olhei seus olhos tristes de longe e quis saber o que dizer, mas não sabia. Os pensamentos tomavam formas em forma de gritos, mas só ela ouvia. E só ela podia sair dali.

28.12.11

Volta

Faço escolhas tão bem que já nem considero que posso me dar mal. Ou pelo menos foi assim que resolvi pensar. Um jeito de não quebrar a cara de forma tão óbvia. A verdade é que me empolgo demais com as possibilidades e, por mais que pese os prós e contras, deixo meu coração falar mais alto. E ele grita tanto que eu sequer hesito em jogar tudo pro alto pra buscar algo que, geralmente, não precisava ser meu naquele momento. É como se a vida brincasse comigo constantemente, me colocando situações importantes, em momentos de muita tranquilidade. Eu topo, claro, porque sempre topei desafios e sempre adorei mudanças. Mas não é fácil mudar. Dizem que o começo é difícil, mas o começo é, na verdade, a melhor parte. Sabe por quê? Porque tem gosto de valentia, sensação de maturidade e sopro de liberdade. Mas o tempo passa, Maria. E eu nem senti. Quando me dei conta, faltava tanta coisa! Antes fossem coisas vãs. Não. É um redemoinho de vazio e silêncio com gritos e risadas que ecoam longe e me incomodam. Qual a diferença entre ciúme e inveja? Não importa depois que se misturam. Lágrimas aliviam, mas não curam. O tempo sim. E aqui estou, mais uma vez, confiando que vai passar.

3.7.11

Calada

Graças a Deus, nasci mulher. Por mais que ache necessário conter o choro, sei que não preciso. Principalmente estando ali, em meio às conquistas que adquiri nos últimos anos. Não queria borrar a maquiagem, a verdade é essa. Mas verdade maior ainda é que mulher quando chora de alegria brilha muito. Maquiagem boa não se desmancha com sorriso, não freia coração acelerado, não abafa gritos de satisfação, pelo contrário, contribui. Porque lágrima de felicidade enrubesce as maçãs do rosto, deixa os olhos mais claros (limpos e livres de tanta ansiedade) e espanta soluços histéricos de beira de travesseiro. Chorar nossas alegrias é como lavar a alma depois de um desaforo, é um grito que ecoamos para o nosso sonho, só pra confirmar que, juntos, nós chegamos lá. Eu engasgo e engulo lágrimas como se cada choro fosse colocar pra fora todas as dores e frustrações que de vez em quando pesam os ombros. Tempestades são regadas de muita, muita água - como tem que ser. Chorar não podia ser diferente - primeiro o dia fica nublado, o céu acinzenta e a gente pensa: vai chover!, os pingos caem de um lugar que ninguém vê, mas sente e molha tudo, te força a trocar de roupa, não sair de casa, se proteger em um abrigo, desarrumar o cabelo e escorrer o rímel nas bochechas. Porque essas águas são assim mesmo: chegam de repente e, com calma ou euforia, externam emoções que, de tão tímidas, nem queriam existir.

30.6.11

Tudo novo de novo

Ele segurou o violão com uma violência delicada. Preparou a voz como quem aguarda milésimos de segundo para proferir qualquer coisa que já havia repetido tantas vezes que nem contava mais. E eu ali, de pernas cruzadas, de frente para algo que desconheço, cantei junto. Vamos começar colocando um ponto final, pelo menos já é um sinal de que tudo na vida tem fim – ele começou. Refleti. Onde estão os pontos finais? Gosto de começos e finais bem resolvidos, de tratos firmados e encerrados com dignidade, sinceridade e firmeza. Entrei e saí tantas vezes daquela sala procurando por um mínimo sinal de que algo era garantido. Bem que mamãe ensinou a não confiar em quem não olha nos olhos. Desconfio, mesmo!, de quem não me olha quando fala comigo. “É coisa de gente covarde”, ela sempre me assegurou. E o fez para me manter segura nesse meio de mundo que escolhi percorrer por minha conta quando lhe soltei as mãos. Desconfio, também, que seja por isso que ela chora – tem medo do que pode ter esquecido de me dizer, do que posso ter esquecido de ouvir. Hoje comemorei porque estive certa todo esse tempo, bem aqui, dentro do meu coração. Talvez não. Quem sabe? Ele me chamou para comunicar algo que não lhe fazia qualquer diferença. Não procurei o calor do contato visual, pois já sabia que não viria. Foi sempre assim, rabiscos, traços, desenhos, riscos e plic-ploc de canetas enquanto dizia coisas importantes com ar de quem só fala porque alguém mandou. Nunca quis, nunca quer, nunca assina, nunca assume – sempre querem, assinam, assumem e mandam, principalmente.


Parti sem olhar para trás, com esperanças fundamentadas em ligações rejeitadas e emails não respondidos. Vamos acordar, hoje tem um sol diferente no céu, gargalhando no seu carrossel e gritando: Nada é tão simples assim! – continuou a cantoria. E, bem, não é. Eu, que sempre me adaptei tão bem às mudanças, estampei um sorriso e segui em frente, “pra tentar entender que acabou”. Mas nada acabou, na verdade. O que vem, agora, é um grande começo, coroado de opções, oportunidades, avaliações, dedicação, afinco e fé. Vamos mergulhar do alto onde caímos. Vamos mergulhar, mergulhar, mergulhar. Eu não sei nadar. Mas vou aprender.


Ps: A música, aqui.